Wednesday, October 25, 2006

PERDÃO

Quem perdoa
Condenou,
Quem condena
Já julgou,
E quem julga
Já pecou.

Quem perdoa quer perdão.

A MORTE

Saudades? Sim.
Arrependimentos? Claro.
Só não se arrepende quem não amadurece;
Mas não se amadurece antes da morte.
Não se morre antes de se arrepender;
A vida é uma sucessão de arrependimentos.

Tudo o que é vivo nasce,
Cresce, se deslumbra,
Se reproduz, se decepciona
E morre.
A vida é um contrato de adesão.

Toda a vida se extingue;
Mas a extinção é para toda a vida.

A presença da saudade é a ausência.

Todo retorno é uma partida,
Mas nem toda partida é um retorno.
Ou é?
O inesperado momento que é certo;
Quando até o descrente clama por aquela
Que é irmã por parte de Pai
E mãe por parte de Filho.

Os que se querem imóveis vão;
Os que se movem ficam.

Se voltar no tempo fosse possível -
Como me emocionaria -,
Choraria como uma criança,
Inocência que lacera,
Mistura de saudade e pena,
Se me deparasse com eu menino,
O qual me olharia com ar maduro,
E já não se saberia
Quem é a criança,
E quem é o adulto,
Pois seríamos um só.

A agonia da imutável injustiça
Se se quer amar alguém,
Se sequer amar alguém.

A vida está me matando,
A morte é que me mantém vivo.

LE PROGRÈS

Les klaxons
Font,
Vont,
Sont,
Ont...

Non, il n’ y a rien –
Absolument rien.

Au printemps,
Il fait beau temps,
Mais il pleut
Assez souvent.

Un monsieur est sorti,
Une dame est sortie aussi.

Le Temps mange la Vie,
La Vie mange l’ Amour,
L’ Amour mange le Temps.

Mère, moi,
Mer, mois.

La nuit tous les chats sont gris.
La nuit tous les klaxons
Font,
Vont,
Ont,
Sont gris.

Satirinews: BALADA LITERÁRIA

A CHUVA CAÍA LÁ FORA. Ainda bem que não subia. E ainda bem que é lá fora. Mas algo realmente novo estava para acontecer naquela quinta. Talvez eu estivesse diante de um fato histórico. No mínimo, um grande momento da literatura nacional. O que aconteceu nos últimos dias 19, 20, 21 e 22 deste mês, dizem as boas línguas, lembrou em muitos aspectos a semana de 22. Um evento que reuniu o filé da mais nova prosa e verso nacional e internacional como Flávio Moreira da Costa, Lourenço Mutarelli, Nelson de Oliveira, Santiago Nazarian, Luiz Roberto Guedes, Rinaldo de Fernades, Ademir Assunção, Nicolas Behr, Paulo Scott, Joca Reiners Terron, o argentino Cristian de Nápoli, Douglas Diegues, Carlos Fialho, Daniel Minchoni, Daniel Galera e Juana Bignozzi, uma das mais importantes poetas vivas da Argentina – a Ferreira Gullar de lá.

ASSIM FOI a Balada Literária. Com a produção e curadoria de Maria Alzira Brum Lemos, Eleonora Vaqui e seu idealizador Marcelino Freire, a maratona literária homenageou o querido poeta Glauco Mattoso. A festa fluiu em torno de mesas de debates, lançamentos, performances, leituras, música e muito ó e muito borogodó. Apesar de fazer lembrar a FLIP em seu formato, o ar era de novidade. Era de nova era. Era literária. Literária era. Cheiro de expectativa. Dos próximos capítulos. De escola nova. Ou de nova escola. Quem sabe escolas. Como em 22. Quem sabe?

NAS MESAS de abertura e fechamento, Glauco Mattoso prestigiou sua homenagem com sua presença . Assim que chegou, deparou-se com um cartaz e o boneco em tamanho natural, de papel marché, do autor do Sítio, na Livraria da Vila. Alisou primeiro a sua bela fotografia feita exclusivamente para o evento por Eder Chiodetto. Depois, as sobrancelhas do Monteiro. "Lobato, agora, só no tato".

NA MESA SEGUINTE, um verdadeiro conto surreal diante de todos os espectadores e membros da mesa. Ao vivo. O escritor carioca-paulista Botika, surpreendeu-se ao ver sua avó na platéia. Justo quando fazia a leitura do trecho mais violento, picante e chocante de seu livro. "Vovó, a senhora aqui?". E ela abandona a platéia para não ouvir o texto do neto. Conto pronto. E ponto. E Sérgio Sant'Anna de óculos escuros e olhos roxos. Resolveu sair do tradicional bati na quina do armário. "Estava ao telefone, conversando com o Jorge Mautner. Quando vi, meus olhos ficaram assim", revelou. "Só faltam crescer os dentes para eu virar vampiro. Por isso é bom não se aproximar / Muito perto dos meus olhos / Senão eu te dou uma mordida".

EM RITMO DE FÓRMULA 1, teve até piloto. O piloto do programa apresentado por Xico Sá, o SÁideira. Aclamado e elogiado. Agora é só esperar. No Ó do Borogodó os escritores sambaram rodaram cantaram e caíram. No samba. Também. De Fabiana Cozza. Baques atabaques truques e batuques. E no salão, performance do poeta argentino Cristian De Nápoli. Antonio Prata, Chico Mattoso, João Paulo Cuenca também entraram na roda. E rodaram e caíram. No samba.

MAIS UM DIA. Para reidratar, Antonio Carlos Vianna! Para endorfinar, Luiz Roberto Guedes. E para nós escritores, a boa nova! Quebram-se os tabus! "Hoje eu vivo muito bem". Da literatura. Escapuliu de Flávio Moreira da Costa. É doce, mas não é mole não. Literatura é rapadura. E a chuva já havia sumido desde quinta. Foi pros quintos! O sol estava quente lá fora. Ainda bem que quente, e lá fora. Douglas Diegues protestou: "os jornais não nos dão espaço". Pega pra capar. Nicolas Behr acha que o poeta tem que largar o muro das lamentações. "O discurso do poeta é o poema". Eu acho que ambos estão certos, se eu não estiver errado.

E JUANA BIGNOZZI cá tocou, se tocou, citou com, com tocou e cutucou. E tem dia que a tarde parece noite. Mas já era noite mesmo. No Espaço dos Parlapatões, Laerte, Angeli, escritores, músicos, atores. Do elenco de Inocência, da Companhia dos Satyros. Naquela manhã de outubro / Não era setembro nem novembro / Glauco voltou no encerramento / Sentou-se à mesa do evento / E chaga de rimamento. O “que cantor e compositor que nada, agora eu sou é poeta” Chico César também carimbou sua presença.

E AGORA, JOSÉ? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José? E agora, Você? Você que é sem nome, que zomba dos outros, Você que faz versos, que ama, protesta? E agora, José? Agora? Agora tem a Ressaca Literária, na próxima terça-feira, dia 31 de outubro, às 19h, na Livraria da Vila, com a presença do escritor colombiano Efraim Medina Reyes. Um dos mais famosos e polêmicos escritores latino-americanos. Ele virá para fazer o lançamento nacional do seu romance Era uma Vez o Amor mas Tive que Matá-lo – Editora Planeta, e do livro de poesias Pistoleiros/Putas e Dementes – Garamond. Na ocasião, participará de um bate-papo com o público mediado por Maria Alzira Brum Lemos e Marcelino Freire. A entrada é franca. Inscrições pelo telefone 3814-5811, pelo e-mail rafael@livrariadavila.com.br, informando seu nome e telefone, ou acesse www.livrariadavila.com.br.

NO ANO QUE VEM tem mais. E nos outros anos também. Já prometeu Frei Marcelino. E em primeira mão: o próximo homenageado será o Roberto Piva. Dormir? Se eu dormi, eu não lembro. Se eu lembro, eu não dormi. Bem lembrado. Boa noite.